Ludoterapia

 

VOCÊ SABE O QUE É LUDOTERAPIA?

A Psicoterapia com Crianças passou a ser conhecida por Ludoterapia, uma vez que, no tratamento com esta faixa etária, passaram-se a utilizar os brinquedos como forma de entrar em contato com seu mundo interno.

Uma vez que a atividade lúdica é espontânea na criança, nada mais natural do que utilizá-la para construir um diálogo mais natural.

Melanie Klein
(Melanie Klein)

Melanie Klein (falecida em 1960) e Anna Freud (falecida em 1962) foram pioneiras na dedicação ao tratamento psicanalítico com crianças. Desde então, muitas propostas e técnicas tem sido apresentadas, mas o trabalho psicoterápico de crianças, através do recurso lúdico, tem se estabelecido.

Anna Freud
(Anna Freud)

 

O BRINCAR É UNIVERSAL

O brincar é um ato universal e isto pode ser facilmente constatado, mas comporta em si uma imensidão de significados. O estudo destes significados nos leva à possibilidade de compreensão do mundo interno infantil, assim como oferece uma porta de entrada neste mundo só seu.

Através do brincar a criança se comunica com seu interno e com seu externo, expressa seus sentimentos, angústias, apreensões, assim como pode solucionar seus conflitos. Assim, o brincar lhe confere a função de se expressar e de se entender, e oferece ao outro estas mesmas funções.

A PSICOTERAPIA COM CRIANÇAS

Na psicoterapia infantil utilizamos deste recurso para nos relacionarmos com a criança que é trazida por alguém que interpretou que ela precisa de alguma ajuda. Precisamos estar atentos para o fato de que quem nos procura, na maior parte das vezes, não é a criança, e isto pode parecer-lhe confuso. Saber apresentar, adequadamente, sua tarefa em uma sala de psicoterapia, junto ao estabelecimento de uma relação de confiança total, são os alicerces para o desenvolvimento de um trabalho bem-sucedido.

A compreensão da dimensão comunicacional de uma brincadeira é a maior sabedoria do psicoterapeuta infantil. Entender como esta comunicação se realiza, é a chave para o planejamento e execução do trabalho psicoterapêutico infantil.

Não podemos esquecer que a socialização nos formata de tal maneira que, muitas vezes, nos faz esquecer como representar nosso mundo interior em através de uma brincadeira, dado que a linguagem apagou, em nós, esta forma lúdica de expressão.  O resgate desta antiga forma de comunicação é o primeiro passo para realização da árdua  tarefa de um psicoterapeuta infantil.

A ANAMNESE:

A anamnese realizada com os responsáveis, assim como a entrevista na escola e com os profissionais de saúde que lidam com a criança, são  fundamentais para o levantamento de hipóteses diagnósticas e de compreensão da dinâmica do comportamento apresentado como queixa inicial, o que, geralmente é o motivador da busca por um profissional especializado nesta área.

Entretanto, a entrevista com a criança é de fundamental importância para a confirmação ou não das hipóteses inicialmente levantadas. Ela, através do brincar, poderá expor seu mundo interno e seus conteúdos, apresentando ao psicoterapeuta, rico material a avaliar sobre sua condição psicológica atual.

Insisto muito no fato de que a criança deve entender o que faz naquela sala desconhecida, com aquela pessoa que não é de seu círculo social, para que o trabalho a ser empreendido com ela possa ser efetuado. Ajudar aos responsáveis a encontrar a melhor forma de transmitir à criança o motivo de ir encontrar aquele desconhecido, é também tarefa da anamnese. Mas ao entrar na sala, após o reconhecimento do ambiente, a pergunta sobre o que ela acha que veio fazer ali, é fundamental para que se saiba de sua consciência da tarefa.

ONDE SE GUARDAM OS BRINQUEDOS NA SALA DE LUDO

A apresentação dos recursos lúdicos, sejam eles guardados em uma caixa ou expostos em uma estante (com seus diferentes significados), é um bom encaminhamento de diálogo. Precisamos estar atentos para o fato de que, nem sempre, a criança se propõe a entrar sozinha na sala de tratamento, temerosa muitas vezes, desta situação não corriqueira. A permissão para a entrada do responsável é indicada, tendo sido isto antecipado durante a anamnese, no que tange ao tipo de comportamento que este deve ter dentro do consultório, junto com a criança. É natural que, à medida que o trabalho vá se empreendendo, a criança crie confiança no terapeuta, e possa entrar com este, sozinha.

É MAIS FÁCIL ATENDER CRIANÇAS DO QUE ADULTOS?

Alguns estudantes de Psicologia acreditam que o trabalho com a criança é mais fácil do que o com adultos. Mas, nada mais errôneo do que esta primeira impressão. O que aparentemente faz parecer mais fácil tratar crianças, se deve ao fato de que elas não têm poder de argumentação verbal e assim não impõem confrontos com o psicoterapeuta iniciante e, naturalmente inseguro de sua tarefa. Entretanto, falar e entender a linguagem do brinquedo é tarefa árdua e requer aprendizagem, pois é linguagem não mais praticada pelos adultos.

O trabalho com crianças requer uma dedicação à compreensão de seu mundo através do lúdico, e a aprendizagem desta linguagem requer intenso estudo e interesse por parte dos profissionais que a esta especialidade se dedicam. Muito a aprender, muitas idiossincrasias apresentadas nesta forma de trabalho, assim como muitas decepções e alegrias incluídas nesta arte de tratamento.

 

MARIA ALICE LUSTOSA, PhD